Garimpo avança 562% em terras indígenas e se soma aos impactos do El Niño
Entre 1985 e 2024, a área garimpada aumentou 20 vezes na Amazônia Legal e 24 vezes dentro das terras indígenas, passando de cerca de 1,5 mil para mais de 36 mil hectares no período analisado.
A área ocupada pelo garimpo em terras indígenas na Amazônia cresceu 562% entre 2016 e 2024, de acordo com dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). O avanço da mineração ilegal nesses territórios, que se tornaram a categoria fundiária proporcionalmente mais impactada, soma-se aos efeitos de eventos climáticos extremos e do fenômeno El Niño.
Os dados constam na nota técnica “Entre conquistas e riscos compostos: por que o futuro ancestral da Amazônia está ameaçado”, publicada na última terça-feira (15). Entre 1985 e 2024, a área garimpada aumentou 20 vezes na Amazônia Legal e 24 vezes dentro das terras indígenas, passando de cerca de 1,5 mil para mais de 36 mil hectares no período analisado.
Atividade ilegal afeta áreas além dos limites demarcados
O impacto da mineração ultrapassa as áreas diretamente exploradas, visto que 147 terras indígenas — o equivalente a 37% do total na Amazônia — estão em bacias hidrográficas atingidas pela atividade. Além disso, cerca de 40% dos garimpos situados fora desses territórios ficam a menos de 50 quilômetros de seus limites, aumentando o risco de contaminação por mercúrio nos rios usados para pesca e abastecimento.
“O garimpo não precisa estar dentro de uma terra indígena para ameaçar quem vive nela. A contaminação se desloca pelas bacias hidrográficas e se soma a extremos de secas, incêndios e enchentes que já comprometem água, alimentação, saúde e modos de vida. É essa combinação de ameaças que transforma impactos isolados em riscos compostos”, afirma Patrícia Pinho, diretora adjunta de Ciência do IPAM e autora da publicação.
Territórios enfrentam sobreposição de desastres climáticos
As terras indígenas Kayapó, Munduruku e Yanomami concentram cerca de 89% de toda a área garimpada dentro desses territórios na Amazônia, com índices de 52%, 23% e 13%, respectivamente. Os municípios associados a essas três regiões registraram juntos 188 desastres climáticos entre 2000 e 2024, sendo 71 na área Kayapó, 43 na Munduruku e 74 na Yanomami.
“Quando garimpo e extremos climáticos atingem os mesmos territórios, seus impactos se potencializam. Uma seca já compromete a mobilidade, o acesso à água e a produção de alimentos. Se esse mesmo sistema hídrico também está pressionado pelo garimpo, a combinação destes fatores influencia a capacidade de resposta das comunidades. Por isso, essas ameaças precisam ser enfrentadas de forma integrada”, pontua Ray Pinheiro, pesquisador do IPAM.
Especialistas recomendam seis medidas para proteção e adaptação
Para enfrentar o cenário de riscos compostos, o documento aponta que apenas a demarcação das terras indígenas não é suficiente, sendo necessárias ações permanentes de adaptação climática. A nota técnica apresenta seis recomendações prioritárias, incluindo acelerar a proteção territorial, fortalecer a fiscalização e a rastreabilidade do ouro e implementar Planos de Adaptação Indígenas.
O estudo também sugere o financiamento de sistemas comunitários de monitoramento de água, mercúrio, fogo e saúde, além do reconhecimento de perdas e danos materiais e não materiais em políticas públicas. A publicação destaca que a proteção aos povos indígenas resguarda também sistemas de conhecimento e práticas fundamentais para a resiliência climática da Amazônia.
Com informações do Ouro Preto Online.



